Quarto dia sem cigarro. Parece que as coisas estão indo bem nessa minha luta. E não está sendo fácil. Noites sem dormir direito [só consigo com um remédio], aquela vontade o tempo todo na cabeça da gente, minha boca está ferida de tanto chiclete. Mas apesar de todas as coisas ruins que ando sentindo, algumas coisas estão me surpreendendo, pela simplicidade que é esquecida por muita gente.

 

Estava no terceiro dia sem o cigarro e entrei numa loja para comprar umas roupas para a buchuda. Sei que é meio estranho homem em loja de mulheres, tipo Marisa e essas desse estilo. Mas pai tem que estar presente, no meu caso, até nesta hora, mesmo quando a gente acaba sabendo que as mulheres são mentirosas e aquelas bundas empinadas, seios levantados são apenas truques com meias e adesivos. Foi uma experiência terrível por um lado e agradável de outro.

 

Apesar dessa descoberta frustrante desse “segredo” do universo feminino, já voltando ao assunto do cigarro, eu voltei a sentir algo que havia desaparecido: o cheiro das coisas. Há muito tempo não sabia o que era isso, pois acho que aquela “catinga” do cigarro estava impreguinada nas minhas narinas impedindo que eu desfrutasse dos prazeres olfativos.

 

Ao entrar na loja, de cara senti o cheiro das roupas, do plástico novo do calçado, acho que até do detergente usado para limpar o chão. Na rua, senti com muita definição o odor da fruta estragada a uns 4 metros de mim, o “leite de rosas” de uma senhora que passou pela gente. Senti um alívio e uma alegria. Mas o melhor mesmo foi quando estava em casa, um dia depois, quando a gente chega cansado do trabalho, e senti meu corpo pedindo um trago. Nessa hora, estava de frente ao guarda-roupa onde a Marina deixa as coisas do Caio. O cheiro de bebê entrou nas minhas narinas como um alívio para a minha alma e acabou com a ansiedade, me dando ainda mais forças em busca da cura completa para esse vício.

 

Estou tentando evitar um medicamento [para ansiedade, que deveria usar antes de dormir] recomendado para o meu tratamento contra o cigarro. Como é controlado, tenho medo de me tornar dependente. Não tomei na noite passada, pois como estava ensaiando com o pessoal da minha banda, me senti cansado suficiente para uma boa noite de sono. Resultado: acordei diversas vezes durante a noite e só consegui dormir depois que tomei o maldito remédio. Mas uma coisa foi boa, pois consegui mais uma vez sonhar com o nascimento do Caio. Acho que estou com dupla ansiedade, pois faltam poucas semanas pra ver o rostinho dele.

 

[PS: o começo do texto lembrou letra de rap...afff]

Estamos na 29ª semana de gravidez. Fazendo o check-list já dá pra perceber que não perdemos tempo durante essas 11 semanas que se passaram desde que descobrimos que Caio estava por vir.

Todos os exames que foram feitos deram bons resultados, meu peso está dentro do esperado, as ultrassonografias mostraram que Caio está crescendo lindamente, falta comprar pouca coisa do enxoval (todo dia eu arrumo e desarrumo tudo, como todas as grávidas!), papai Diego já está aprendendo a tocar no violão várias cantigas de ninar (até chorei ao ouvir “se essa rua fosse minha”, “o cravo e a rosa”, “alecrim”, lembrando de quando a mamãe colocava pacientemente os quatro filhinhos pra dormir todas as noites…) e também estamos trabalhando musicoterapia durante a gestação (indicada por uma especialista amiga do Diego).

Mas a melhor de todas as notícias e talvez o processo mais difícil que passamos durante esses dias todos é: papai já se considera um ex-fumante! E Caio já se sente grato e orgulhoso pelo seu esforço e força de vontade!

 

Agora conto a minha parte…

 

Meus dias eram como uma trilha de pólvora queimando a caminho de uma dinamite. E isso foi aceso com a brasa de um cigarro, há muitos anos. A notícia da chegada do Caio foi o motivo para não deixar esse mal explodir e me consumir, e isso me fez tomar a decisão: é hora de parar de fumar.

 

Nunca imaginei que fosse tão difícil acabar com esse vício. Já passei por isso antes, mas consegui parar por apenas quatro meses [dizia a todos que eram cinco, mas passei um mês fumando escondido]. É meio triste saber o quanto você é fraco quando se vê sendo dominado por algo tão pequeno, tão insignificante, tão nada.

 

Mas agora é diferente. Tenho um motivo para não ser mais um fumante. Não quero que meu filhote sinta o mal cheiro de cigarro quando um receber carinho do pai e nem que as lembranças olfativas da sua infância tenham algo relacionado a isso.

 

A primeira semana está sendo terrível. A ansiedade toma conta do meu corpo. E isso tem se misturado a milhões de sensações na minha cabeça, fazendo uma confusão sem tamanho. Em menos de dez segundos, consigo ficar com raiva, sorrir e ficar impaciente. E em cada suspiro [aliviado, vale ressaltar] sinto falta da fumaça. Às vezes dá vontade de chorar…

 

Ando mais irritado, algo que infelizmente acaba atingindo a Marina, mas tento me controlar ao máximo. No trabalho, minha capacidade de concentração está muito baixa. Mal consigo escrever um parágrafo sem ter a atenção desviada para alguma coisa. Até nesse texto foi assim. Creio que me levantei da cadeira umas oito vezes, sem contar as conversas em que acabo atrapalhando a Aline Rodrigues [a repórter de Esportes do O Dia] aqui do lado.

 

Sei que estou apenas no início dessa jornada contra o cigarro, mas estou certo que não quero mais voltar e que tudo vai valer a pena.

 

 

 

 

Todo casal que espera ansiosamente a chegada do seu bebê faz de tudo pra que o ambiente esteja na mais perfeita ordem quando o herdeiro der o ar da sua graça. Pintura no quarto, colchão confortável, lençóis macios, sapatinhos e roupinhas lindas e fofas, perfumes, brinquedos, além de toda a expectativa sobre dia do nascimento, a primeira troca de fraldas, o primeiro banho, a primeira palavra dita, os primeiros passos…

            No nosso caso, além de nos preocuparmos com todos esses detalhes e outros mais, existe ainda um assunto mais sério que precisa ser resolvido antes de Caio vir ao mundo: papai precisa parar de fumar!

            Acho que o nosso filhote já vai nascer orgulhoso do pai que tem porque, depois de muita relutância durante anos pra deixar o tal do vício, Diego finalmente resolveu encarar o problema e decidiu que Caio não vai conhecê-lo com aquele cheirinho de cigarro.

            O tratamento começou terça-feira passada, receitado por uma médica amiga nossa. O início é bastante complicado, porque sempre dá aquela vontadezinha de fumar mais um cigarro, mas eu virei uma espécie de fiscal 24 horas por dia.

São 12 semanas de tratamento. Durante os sete primeiros dias Diego ainda pode fumar, mas tem que diminuir cada vez mais até que finalmente, no oitavo dia, ele vai ter que esquecer que cigarro existe. É nessa hora que Caio e eu vamos entrar em ação, tentando mostrar pro papai que a importância da saúde da nossa familiazinha linda vai se sobrepor à uma mera vontade de acender mais um cigarro.

 

Coisa de pai babão…

 

É incrível como a gente tenta projetar os nossos planos nos filhos. Não sabia como era isso até me descobrir como pai. Será se ele vai ser mesmo um torcedor do Grêmio, se vai gostar de metal? Será se vai ter vergonha de ter um pai roqueiro cabeludo o deixando na porta do colégio? Essas perguntas tomam conta de qualquer marinheiro de primeira viagem e me fazem pensar no que meu pai sentia, no que almejava em mim, em como queria que eu fosse. Talvez ele quisesse que eu fosse um bom jogador de futebol, mas não esqueço da frustração do velho ao me ver jogar na escola no time da “baba” [o que só tem os piores] fazendo de tudo para mostrar uma habilidade que nunca tive -mas pelo menos eu tentei.

O mais engraçado é que chega a ser tão comum essa projeção egoísta sobre a personalidade dos filhos. Todos os pais fazem isso e alguns encaram de forma diferente as coisas e acabam acumulando os famosos atritos na adolescência. É desesperador. Acho que o maior conforto, pelo menos por enquanto, está nas palavras da Marina, quando percebe o meu medo e diz que o mais importante é que o Caio será um homem de caráter, algo que aprendi com meu pai e quero passar para o meu filho. Isso, certamente estará acima de qualquer música, gosto, e será uma semente para a colheita de bons frutos.

Hoje estamos completando 26 semanas ou seis meses de gravidez. Digo “estamos” porque eu sou apenas a pessoa que carrega o Caio na barriga, sente os chutes, as cambalhotas, o cansaço, as dores nas costas, quem toma vitaminas, agulhadas, ouve conselhos, recomendações, até mesmo reclamações, quem se estressa rapidinho com qualquer bobagem, quem se assusta de madrugada com esse moço se esticando ou talvez brincando com as mãozinhas, entre outros detalhes que só as grávidas sabem como é.

Mas a sensação de encantamento e felicidade por saber que ele está cada dia mais ativo, mais saudável e mais preparado pra vir ao mundo e que faltam apenas três meses pra ele chegar e mudar completamente a rotina do papai e da mamãe, imaginar a carinha dele, os choros noite adentro, os sorrisos, as brincadeiras, os primeiros dentinhos, passos e palavras, as músicas que ele vai aprender a cantar, as fantasias e até os medos e tudo mais que vai existir no “fantástico mundo de Caio”, tanto eu quanto Diego sentimos exatamente na mesma intensidade. E não tem preço.

 

Faltam apenas três meses…

 

Seis meses. Nesta quinta-feira, fizemos seis meses de grávidos. As coisas têm se complicado. Ela reclama de desconforto na barriga e eu de não poder fazer nada para ajudar. Ontem sentimos que ele virou, ou está próximo de fazer isso. Os médicos dizem que é a preparação para ficar na posição do parto.

 

Isso as vezes atrapalha um pouco, mas ao mesmo deixa a gente mais encantado, pois ele mostra a cada instante que está ali, firme e forte, procurando espaço.

 

Já estamos acertando as coisas para o chá de bebê, pensando no que ele pode precisar para termos sempre à mão, pois ninguém sabe o dia que ele pode alegrar o mundo com a sua presença. Se puxar pro pai, deve estar impaciente e pode nascer antes do previsto. [Se bem que se puxar mesmo pra mim, deve estar procurando alguma coisa pra consertar na barriga da mamãe e isso pode curar a ansiedade].

Pai do Caio.

Na minha estréia no blog, não poderia deixar de escrever sobre essas coisas estranhas que acontecem quando estamos grávidos. Digo grávido porque nunca me senti tão perto dos sintomas da gravidez, as vezes com enjôos, mudança de humor, até a minha barriga cresceu [tudo bem que peguei embalo com as sobras de guloseimas da Marina e isso gerou uma barriguinha avantajada]. Toda a brutalidade e o machismo que existem no homem caem quando ele se descobre pai, quando se imagina carregando aquela coisinha tão pequena nos braços, tendo a certeza de que irá fluir uma delicadeza que jamais tive.

Durante os processos [exames, agulhadas e consultas], fiz [e faço] questão de sempre estar com a Marina [a que carrega o Caio] nunca senti tanto medo e tanta felicidade. Os pensamentos em torno do que ele vai ser, do que vai gostar, de quem será o mais criança [eu ou ele??]. Isso tudo me faz ser um pai coruja que mata o tempo do trabalho para escrever isso.

Tenho que voltar ao batente agora. Depois escrevo mais.

Diego Iglesias, pai do Caio.

Pop Machine

 

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